segunda-feira, 31 de maio de 2010

'Não consigo ouvir duas vezes a mesma música'

São Paulo,26 de Maio de 2010

ENTREVISTA Cesar Camargo Mariano, pianista e arranjador


Convidado pela Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer (Tucca) para participar do show Música pela Cura, o violonista, guitarrista e compositor Chico Pinheiro logo pensou em dois músicos importantes para se juntar a ele no projeto. Chamou o amigo Cesar Camargo Mariano, pianista, arranjador, compositor e produtor, e Edu Lobo, cantor, compositor e instrumentista, a quem ele conhecia apenas de conversas de bastidor. O trio se reúne hoje, às 21 horas, no palco da Sala São Paulo, com renda revertida para a entidade.

Esse encontro, inédito, já se esboçou nos ensaios realizados num estúdio no bairro de Sumarezinho, em São Paulo, dias antes da apresentação. Cesar veio diretamente dos EUA, onde vive há 16 anos. Edu pegou a ponte aérea no Rio. “Meu trabalho fica entre a canção e o instrumental. Então, tinha muito sentido chamá-los', diz o anfitrião Chico.

No ensaio de segunda à noite, ele, Cesar e banda - ainda sem a presença de Edu - começaram a definir parte do repertório. Todos entrosados, ali foi tomando corpo o espetáculo, que será puxado por canções como Tempestade, Café com Pão, Choro Bandido e Dança do Corrupião. Foi nesse ambiente de ensaio, um de seus preferidos, que Cesar Camargo Mariano falou ao JT sobre música e sua vida nos EUA.

É a primeira vez que você e Edu Lobo se apresentam juntos?

Sim. Sempre fiz arranjos para músicas dele. É um grande compositor. Acho que não somos muito mais próximos, porque eu morava em São Paulo e ele, no Rio. Agora, no palco, num disco, tocar juntos, nunca fizemos antes.

Você mora em Nova York desde 1994. Já foi pensando em ficar?

Até hoje não penso em ficar. Não estou lá. Estou lá e cá. Nunca quis sair do País, mas a decisão de ir para lá foi por conta de compromissos. Evidente que por causa de mercado também, porque a música instrumental lá tem um público específico, que é grande. Mas é um lugar mais perto do mundo. Sempre tive muito trabalho espalhado nos Estados Unidos, Europa, América Central. O estopim da bomba foi quando tive de nomear um agente na Califórnia, enquanto eu ainda morava aqui. Um dia, ele me disse: “Cesar, você precisa estar aqui amanhã às 11 horas”. Não dá. Além disso, estar lá é maravilhoso em termos de qualidade de vida. Quando fui, minhas filhas (Luiza e Maria Rita) ainda eram pequenas, então foi bom para elas.

Você mantém uma rotina de estudos, ensaios?

Estudar, nunca. Ensaiar, muito. Sou a favor de muito ensaio para qualquer coisa que seja. Porque quando você sobe no palco, existe uma injeção de adrenalina e a segurança protege você dessa tensão. Deixa todo mundo muito confortável. Já o estudo é zero. Deixei de ter piano em casa aos 18 anos. Tenho teclados, estúdio, mas piano não. Nunca dedico um tempo para ficar estudando, só faço isso na hora de compor.

Então, você ainda sente a adrenalina quando sobe no palco?

Sem dúvida. Muita adrenalina, pernas tremendo. Em dia de concerto, eu não como nada, nem café da manhã. Me sinto bem de estômago vazio. Só tomo muito café e água o dia inteiro. Não tomo droga nenhuma, não bebo. Tenho essa necessidade de estar muito ligado a partir das 14 horas para o concerto às 20 horas. Quando eu como, fico relax demais. Desde menino, por causa do trabalho, me acostumei a comer muito de manhã, não comer nada o dia inteiro e só jantar. Não sou ligado em comida light. Faço muita ginástica, ando.

Nos dias de hoje, no cenário da música, parece ser mais importante o artista aparecer na mídia primeiro para depois mostrar seu trabalho. Com a sua geração, acontecia foi inverso. O que você acha disso?

A indústria fonográfica é responsável por isso. Ficou estabelecido por ela que você tem de gravar um disco e depois vender esse disco. Na minha época e de Elis Regina, eram duas coisas ao mesmo tempo. Começávamos um ciclo com a gravação de um disco e íamos para a rua trabalhá-lo o ano inteiro. Na metade do ano, estávamos com repertório já mudado, que entraria no próximo álbum. Hoje, você tem de fazer mais shows, mostrar seu trabalho ao vivo, para depois gravar. Isso facilita para a gravadora divulgar. Isso quando se tem gravadora.

E o que acha de fenômenos como Lady Gaga?

Não me incomoda nem um pouco. É tudo válido. O que cobro pesado mesmo é qualidade. Se você quer um disco recitando textos, com um sonzinho atrás, tudo bem. Mas que seja bem gravado, bem cuidado.

Tem ouvido algum artista novo?


Nunca ouvi disco. Tenho uma discoteca e CDteca muito grande, porque ouço uma vez. Não consigo ouvir duas vezes a mesma música. Faço isso muito raramente. Tenho meus discos de cabeceira, que são trilhas de cinema, coisas de música clássica ou jazz, que gosto de visitar de vez em quando. Mas ficar ouvindo IPod, música o dia inteiro, eu não consigo.

Quando não está envolvido com música, o que gosta de fazer?

Desenhar com lápis crayon. Quando estou falando ao telefone, faço um desenho.

Você é muito crítico com seus filhos (Pedro Mariano e Maria Rita, filhos com Elis Regina, e Marcelo Mariano, com a cantora Marisa Gata Mansa) envolvidos na música?

Não, pelo contrário. Fui criado assim também. Quando me perguntam coisas, respondo baseado em experiência. Tenho obrigação de educar. Temos uma caixinha de primeiros-socorros em casa. Quando cair, a gente arruma, mas tem de deixar cair.
A Maria Rita já atingiu um momento em que comparações com a mãe Elis não fazem mais sentido. No entanto, no palco, muitas vezes ela impressiona por semelhanças. Você já teve essa sensação nos shows dela?
Pergunto se você teve essa sensação hoje vendo meu filho (Marcelo Mariano, baixista) tocando comigo. É genética. Tem de ter o jeito. Em casa, a gente acha ela muito parecida com a titia, a vovó...

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